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Ctrl+C

Bruno Munari

Sabe aquele momento do insight? Quando você tem aquela puta ideia inovadora, que vai revolucionar tudo que já foi visto sobre comunicação e fazer você ganhar todos os GPs de Cannes? Até a hora que você coloca no papel e alguém diz: pô, isso aí é igual aquele lance lá do…

Pois é amigo, nossa área está recheada dessas frustrações. E no dia-a-dia aprendemos a nos acostumar com isso, sempre buscando referências novas e tentando espremer o cérebro num daqueles bagulhos de amassar alho até sair algo inovador, diferente e positivo. Mas sempre – ou quase sempre – vem algum fulano hipster-antenado-espertalhão dizer que a sua ideia, o seu logotipo ou layout novo são muito iguais a alguma outra coisa que ele vai te mandar o link pra você ver assim que ele voltar do almoço.

Théodore Flournoy foi um cara desses. Além de ser médico e professor de Filosofia e Psicologia na Universidade de Genebra, foi também autor de obras sobre espiritismo e fenômenos psíquicos. Em 1900, descreveu este fenômeno como Criptomnésia. Palavrinha estranha e que define um conceito mais amplo, mas dá pra resumir.

A grosso modo, esse conceito define – entre outros fenômenos – o trabalho da mente humana em combinar inconscientemente teorias, conceitos e referências em resultados que, conscientemente, são apresentados em nossa mente como novos, mas que na verdade já estão lá como uma memória oculta, inconsciente ou ancestral.

Sempre que sai um novo logotipo da copa, das olimpíadas, de alguma cidade ou alguma campanha relevante, logo surgem os boateiros e caçadores de plágio levantando a bandeira de que aquela ideia ou conceito já foi utilizado. Muitas vezes a semelhança é tão grande que fica difícil acreditar que seja outra coisa que não um plágio. Como sou paulistano, posso citar dois exemplos claros que ilustram isso com as marcas da cidade.

A Pinacoteca de São Paulo, batizada de “pina_” no seu rebrand feito pela F/Nazca Saatchi Saatchi, foi alvo de duras críticas devido à extrema semelhança com a identidade visual da Cidade do Porto, criada pela White Studio, que por sua vez foi acusada como plágio da Prague School of Design, criado pela Kulachëk. Fora isso, a marca Fair Kiez, de um projeto turístico em Berlim, teve sua marca “cancelada” por ser acusada de plagiar a do Porto. O escritório responsável, o 3BKE, defendeu-se, alegando apenas uma “coincidência de ideias”.

Imagens: Divulgação

Imagens: Divulgação

Outra marca duramente acusada de plágio foi a do Balneário Camboriú, feita pela Tempo Brasil, que mostra grande semelhança com a marca criada por Rômulo Castilho para a Cidade de São Paulo. A marca de SP foi criada como uma proposta de TCC, orientado pela grande figura da Prof. Dr. Andrea de Souza Almeida, que foi durante muitos anos minha professora no Mackenzie (saudade) e reforçava veementemente a exploração dos processos criativos em busca de soluções inovadoras no design.

Imagem: Divulgação

Imagem: Divulgação

É sempre difícil dizer se realmente existe plágio (especialmente nos projetos citados, onde não me posiciono a favor nem contra, absolutamente. Cada um deve saber de onde saem suas referências), como fica evidente o quanto é questionável dizer que algum projeto é copiado dada a singularidade de cada resultado. À parte disso, muitos ainda utilizam ferramentas de pesquisa para buscar referências na intenção de roubar, na cara larga, a ideia do amiguinho. E, sejamos sinceros, às vezes precisamos mesmo nos apoiar solidamente em alguma coisa já feita para resolver peculiaridades de nossos projetos. E temos que nos policiar bastante para entender e não abusar disso. Vale dar uma conferida no site Joe La Pompe, que traz a polêmica a um nível Hard.

De qualquer maneira, gosto de acreditar que a maioria das coisas que “surgem” no design são consequência de uma onda referencial da qual nós todos fazemos parte e, de certa forma, remoldamos, copiamos, seguimos todos os dias. Ou vai dizer que você sempre foi extremamente original?

Modismo, tendência, gosto, estratégia comercial. Chame como for, mas certamente você faz parte de uma cadeia da qual é muito difícil fugir completamente. Já reparou que às vezes no cinema surgem filmes com propostas semelhantes e que são lançados quase simultaneamente? Daí você fica imaginando se um copiou o outro e tal. Ou no design de carros, produtos, etc. É só lembrar da Criptomnésia antes de sair apontando o dedo.

Para aprofundar o tema, recomendo a leitura de Das coisas nascem coisas do Bruno Munari. Um livro que trata não somente da arte de saber utilizar referências e conceitos que parecem já batidos mas também de utilizar a criatividade e improvisação, juntamente com intuição, para atingir trabalhos mais inovadores.

Em tempos de globalização, é muito provável que alguém esteja pensando exatamente a mesma coisa que você. Temos acesso às mesmas referências e encaramos desafios parecidos todos os dias, e as ideias estão soltas por aí. Não precisa ter medo de abusar no Ctrl+C. Só tem mesmo que ficar esperto quando for usar o Ctrl+V.

 

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