Publi e MKT

Go Pokemon!

Imagem: Divulgação

Sempre que ouço o álbum Official Live: 101 Proof do Pantera lembro das intermináveis horas capturando bichinhos na tela do computador. Eu e minhas saudosas tardes ouvindo musica e jogando games aos dezesseis anos. Aquele joguinho pra game boy que tinha emulador no pc, sabe? Com uns gráficos de pixels muito bem trabalhados, sua simplicidade e mecânica altamente viciantes, o Pokemon entrou em minha vida, e ganhou um espacinho no meu coração.

Confesso que não tinha muito saco pra assistir ao desenho na TV, mas o joguinho de “super trunfo” evoluído tinha lá muitas alegrias. Fazer parte da história é sempre algo muito empolgante, quando você pode capturar os abestadinhos e botar eles pra quebrar o pau, cuidar do desgraçado através de longas jornadas e ir treinando, ver o bicho crescer e se tornar um bem-sucedido lutador. Puta aprendizado sobre liderança pessoal. Era quase como ter um filho (mó orgulho dos meus Charizards).

Esse nível de interação e imersão é o sucesso do jogo, que ultimamente tem dado o que falar. Não é a toa que o game criou uma revolução no quesito interação. A diferença nessa nova e tão burbulhante versão é que agora você não ajuda um personagem (o Ash). Neste novo formato, você É o personagem, que captura e cria seus próprios monstrinhos. Por enquanto as batalhas são restritas entre treinadores, mas nada impede que futuramente você tenha que ralar para capturar aquele bichinho que tanto tentou encontrar. Pois é, a vida não será fácil para quem quiser se aventurar.

O mais interessante desse movimento todo ao redor do jogo, porém, não se encontra na evolução do jogador durante sua jornada de captura, mas nas situações descontroladas e muitas vezes bizarras que seus jogadores se metem. O fenômeno é tão grande que muitas notícias que estão sendo veiculadas na internet parecem mesmo obra de cinema, como invasões a delegacias por jogadores, pessoas largando empregos e viajando o país para procurar os bichinhos, multidões descontroladas correndo pelas ruas. Até mesmo um cadáver foi encontrado por uma garota que caçava uns pikachus no rolê. No vídeo abaixo dá pra ter uma noção do fenômeno.

As notícias só aumentam e a febre nem chegou ao Brasil ainda. Por aqui, a parada certamente será causadora de boas risadas – afinal o brasileiro não perde uma –, mas também poderemos ver consequências dramáticas. Uma matéria escrita para o site sensacionalista traz em seu ácido humor a observação de que lançar o game em terras tupiniquins durante as olimpíadas pode gerar graves problemas, já que teremos muitos estrangeiros andando loucamente pela cidade maravilhosa, entrando em favelas ou zonas perigosas sem se dar conta do perigo.

Diversos casos de assaltos já foram reportados, onde os criminosos utilizavam iscas pra atrair pokemons e aguardavam os jogadores chegarem ao local, onde eram devidamente surrupiados pelos meliantes. Todo o cuidado é pouco, e talvez agora seja uma boa hora para repensarmos questões sobre nossas cidades, seu acesso e segurança. E especialmente vale uma reflexão sobre nosso próprio comportamento.

Tenho certeza que você leitor está um pouco cansado de ouvir histórias sobre o jogo e já ouviu seus amigos falando para ficar esperto – e sempre é bom dizer: fica ligeiro rapá –, portanto esses assuntos vão ficar pro resto da internet falar sobre. Aqui o lance é parar pra pensar justamente no valor dessa marca, e na revolução que isto está causando nas nossas vidas.

O game está mudando completamente nossa maneira de ver as coisas pois, até certo ponto, viabiliza comportamentos sociais que só víamos em filmes de ficção. Para se ter ideia, o CEO de um portal de tecnologia chamado The Next Web está obrigando seus funcionários a jogarem o jogo por 30 minutos ao dia, estimulando seus funcionários a caminharem um pouco e se exercitarem pela região. Estamos vivendo vidas tão fechadas na bolha digital que dois diretores de arte criaram o projeto Pokemon No, onde criam intervenções para que as pessoas tomem cuidado onde pisam.

Imagem: Pokemon No

Imagem: Pokemon No

Somos uma geração de pessoas criadas com estrutura e acesso à comunicação. Claro que nem todo mundo tem um iPhone (nem eu tenho) e não é tão barato assim gastar uma grana todo mês com planos de telefonia mas, de maneira geral, o mundo todo  – e o Brasil consequentemente  – permitiu que quase qualquer pessoa tenha acesso direta ou indiretamente à internet. Mesmo as prioridades de consumo mudaram. Antigamente todo mundo sonhava em ter um Nike Air Max, mesmo meus amigos, que como eu moravam na periferia. Hoje todo mundo quer é um iPhone. Antigamente quando te assaltavam os caras levavam sua grana, sua carteira. Hoje levam seu celular, ou então sua vida.

Esse acesso que temos nos tornou de certa forma dependentes de uma inserção global, ou seja, temos que fazer parte das redes, estar antenados e compartilhar conteúdo digital, seja pelo facebook, whatsapp, instagram ou outra. No mundo dos negócios não é diferente. Quem não se conecta hoje em dia provavelmente não trabalha em uma agência de publicidade, não dá nem pra ser chamado para uma entrevista. E isso se deve ao fato de que nossa área integra sistemas de comunicação cada vez mais digitais. As marcas hoje estão na web muito mais do que nos seus produtos. E se você não faz parte dessa rede provavelmente não saberá trabalhar nessa área (há controvérsias, mas o mercado pensa assim).

A Nintendo teve então a sacada mais genial – e previsível – que poderia ter para sair do sufoco. Não se trata de um jogo qualquer, ou de um novo jogo. Não. Eles sabiam que você, que hoje está colado na tela do celular junto de outros milhares de “adultos” passou a infância grudado na tela do gameboy, do pc, na frente da TV. Lançou o jogo que está enraizado no seu coração e com uma jogabilidade que você nunca tinha visto antes. Isso é sucesso, isso é trabalho de marca. Não é a toa que as ações da Nintendo na bolsa de tóquio tiveram sua maior alta desde 1983.

Quando pensamos em comunicação, muitas vezes esquecemos de dar valor aos consumidores com quem falamos. Como nossa geração está se tornando só agora o foco dos produtos e marcas, ainda não entendemos de maneira mais precisa como vemos o mundo, quais nossos anseios. Diante de diversas questões relevantes em nossa vida, quem diria que a maior de todas as necessidades da galera da nossa geração seria caçar pokemons?

Crescemos em um mundo muito mágico. Crescemos rodeados de cuidados para que nada nos faltasse. Tivemos uma infância gloriosa, recheada de mitos e ícones. E tivemos acima de tudo a vantagem de carregar estes ícones de nossa infância em nosso dia-a-dia até mesmo quando nos tornamos adultos.

Twitter da Amazon vendendo carregadores de celular portáteis, já que o jogo consome muito a bateria do celular. Imagem: Divulgação

Twitter da Amazon vendendo carregadores portáteis, já que o jogo consome muito a bateria do celular. Imagem: Divulgação

Sempre admirei muito meu tio Mário, um grande figura que até hoje com seus sessenta e poucos anos joga videogame diariamente. Quantos adultos assim você conhece? Meu pai não tinha mais videogame aos 30 anos. Hoje os adultos com 30 anos possuem dezenas de bonequinhos na sua mesa de trabalho, usa camiseta do batman e tem o Darth Vader no wallpaper do pc.

Crescemos unidos por essa síndrome de peter pan. E as marcas que são espertas sabem utilizar isso de uma maneira genial. Vale pontuar aqui o recente lançamento da série “Stranger Things” do Netflix, toda ambientada nos anos 80 e que já laçou os corações de toda a galera.

Há muito tempo quero fazer um texto falando sobre Walking Dead e a simbologia por trás de um dos personagens principais, mas não quero dar spoiler para quem não viu, então somente pense na seguinte questão: um dos personagens acaba perdendo o olho direito na última temporada da série certo? Agora pense daqui uns 20 anos, a série será apenas uma lembrança da adolescência de muitos “adultos”. Pense que alguém lança uma série sobre zumbis, e que o personagem principal da série é um cara bonitão-badass com chapéu de cowboy e não tem o olho direito (o mesmo olho aliás que o governador não tinha). Só pense no valor disso tudo. No fuzuê que vai causar. No valor que essa marca terá.

Isso meu amigo, é estratégia. Isso é muito, muito dinheiro pra gerar no futuro. Não é a toa que estamos na época dos revivals. As marcas estão conscientes do impacto que um símbolo pode causar quando remete ao passado do consumidor. É nisso que devemos pensar quando falamos da nossa geração. Somos uma geração de pessoas que quer ir lá no passado, pra toda hora poder ir “de volta para o futuro”.

Post de Facebook do Greenpeace: "Butterfree não está em risco de extinção, mas o lar de 302 tipos de borboletas está." Imagem: Divulgação

Post de Facebook do Greenpeace: “Butterfree não está em risco de extinção, mas o lar de 302 tipos de borboletas está.” Imagem: Divulgação

Existem grandes empresas atualmente criando produtos, histórias e símbolos que só darão retorno daqui uns 20, 30 anos. Criando universos gigantes, pontuados de simbologias, e que são, de certa forma, inacabados. Daqui uns anos você irá saber quais e como eles irão continuar de onde pararam.

É interessante pensarmos nisso quando criamos nosso trabalho, no como podemos mudar e resgatar coisas lá de trás, ou mesmo projetar resultados para décadas adiante. Muitas empresas estão aproveitando bem o momento (como o anúncio da amazon e do greenpeace acima), e quem é esperto já está de olho na próxima. E você, tá só olhando?

Clique aqui para comentar ( )