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Hipsterismo

Imagem: Shutterstock

Já ouvi uma vez que existem dois tipos de criativos, os “com TOC” e os “que não se tocam”.

Manja aquele cara certinho, que gosta de tudo organizado e alinhado? Que limpa o monitor três vezes por dia? Odeia comer na mesa de trabalho e tá sempre com a garrafinha de água alinhada com o monitor e o calendário posicionado a 45 graus? Que organiza as pastas do job com números sempre na mesma ordem para padronizar/facilitar o acesso aos arquivos? Que agrupa e renomeia todas as layers no photoshop? Pois bem, esse é um cara do grupo dos “com TOC”.

Do outro lado temos aquele cara que sempre chega tarde ao trabalho porque fumou um na noite anterior, que conhece todo mundo da empresa e é querido por todos. Aquele cara que, não importa o quanto a casa esteja caindo, ele fica sossegado e ainda termina os Jobs no prazo. Não se envolve em papinhos e fofoquinhas, até porque nem se interessa nelas, mas que tá sempre ligado no que tá rolando. Os caras que muitas vezes acabam incomodando porque deixam aquele saquinho de fandangos jogado em cima dos impressos da D.A. sentada na mesa ao lado, que por coincidência pertence ao grupo das pessoas com TOC. Sabemos que não é por mal, afinal ser despreocupado e não seguir regras é uma das coisas não só mais saudáveis como também necessárias na nossa profissão. Mas muitos chatinhos perfeccionistas acabam mesmo rotulando esses caras como os “que não se tocam”.

Podemos também separar, de certa forma, criativos mais ligados à linha racional, que adoram Mondrian, helvetica, Phillipe Starck, malhas de construção, sempre alinham todos os objetos do layout que fazem e gostam de calcular que a lombada do livro vai ficar com 5mm porque fez um cálculo que é: gramatura × número de páginas ÷ 14400 (sei essa fórmula de cabeça, ela nunca falha!).

Do outro lado temos aquele cara mais ligado ao campo emocional, que curte muito ouvir de The Clash a Miles Davis, acha comic sans uma fonte legal se usada da forma certa, gosta dos desenhos do Ralph Steadman, faz uns Jobs muito caóticos e curte dar umas diagonais e quebras no layout, meter uns Flare nas fotos e botar um contraste foda. Aquele cara que cria uns arquivos que, só o logo promo da campanha tem 2,75 Gb, mas muito bem utilizados.

O mais legal é reparar que o cara com TOC nem sempre é o cara que gosta de helvetica, mas alguém que curte ouvir um Megadeth às 8 da matina. E muitas vezes o cara dos “que não se tocam” acreditam que a tipografia deve ser simples e direta, com um layout clean e alinhado.

O que me fez escrever este texto foi perceber que essa cultura do criativo HIPSTER que está tão na moda hoje de certa forma simboliza fato de que atualmente estamos gerando uma nova maneira de criar, um novo perfil tanto profissional quanto pessoal.

Imagem: Shutterstock

Se você parar para notar, o tal do Hipster que tanto se fala combina um misto de cara com TOC com a malandragem do cara sussa. O hipster tem o iPhone alinhado com o óculos em cima da mesa, enquanto degusta um café gourmet que está estrategicamente alinhado com sua tablet. Ao mesmo tempo, aquele Hipster barbado com cara de lenhador manja todas as baladas de rap da região, e sabe onde tem aquela lanchonete com um sanduba maneiro e tubaína.

O hipster trabalha sussa, sem pressa de terminar o job logo, mas sabe que só vai sair às 22h e precisa fazer um trampo sério. Hipster alia a seriedade de um profissional com a descontração de um cara tranquilo. Conversa com você sobre aquele filme B, mas sabe defender todos os aspectos visuais da marca em uma apresentação. Freela em casa depois do trampo, fica acordado até às 3 da matina, mas sabe que trabalha melhor depois de fumar um.

O hipster também combina em seu trabalho todos aqueles conceitos esquemáticos de construção, aquele design moderno e alinhado, a simplicidade e seriedade perfeitas na construção da mancha gráfica. Hipster faz até conferência de cor na hora de fechar arquivo.

Mas quando o layout precisa daquela “pegada”, ele cai matando em uma arte doidona, umas cores fortes e o contraste denso. Fala que achou uma referência que mistura David Carson com Edward Hooper. Hipster manja dos trampos da Frida Kahlo, do Basquiat. Manja até que quem foi o baterista do Morphine de 89 a 92 foi o Jerome Dupree, substituído depois pelo grande Billy Conway.

Sendo você um hipster ou não (claro que você não precisa se apegar ao estereótipo do “hipster” só por causa da camisa xadrez), esse perfil vem sendo amplamente difundido nas áreas criativas, vem lotando as agências com uma galera esquisitona e diferente, mas que manda bem afinal de contas. Vejo que o hipster simboliza essa transição do perfil profissional, que passou dos chatões de terno do design moderno aos doidões surfistas do design desconstrutivo. Uniu o que tem de melhor em todos os lados buscando se tornar um profissional mais consciente e preparado. Inteligente, mas visceral também.

Com esse novo perfil profissional que a globalização proporcionou, nós comunicadores estamos estabelecendo novas e mais criativas maneiras de se comunicar, de certa forma estabelecendo um novo “estilo” de comunicação, muito mais amplo, coerente, inclusivo e profissional. Um estilo baseado na paixão pela profissão, pela seriedade e entusiasmo. Um estilo com conteúdo, mas também com a descontração de viver.

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