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I S2 SP

Imagem: Projeto São Paulo City - www.projetosaopaulocity.com.br

Vou falar da minha cidade, se me permitem. Nasci em Guarulhos, porque meu pai trabalhava por lá e era mais cômodo, mas morei minha vida toda em São Paulo, de onde escrevo agora. Periferia, Zona Leste. Se olhar para o lado, da minha janela posso ver a nova Arena Corinthians, o Itaquerão, estádio que abriu a cerimônia da Copa do Mundo de 2014. Nem sempre a ZL teve essa importância. Na minha infância, a coisa aqui era bem diferente.

Desde pequeno acho bonito o caos da cidade. A multiplicidade, diversidade, estilos. Aquela parede pixada contrastando com a brancura de um prédio chique. São Paulo fez eu ser quem sou e entender do que faço. Entender o mais rico e o mais pobre. Quem mora em São Paulo é apaixonado pela cidade. Assim como muitos se sentiam em NY e, através de uma jogada brilhante de Marketing feita pelos mestres da propaganda, o grande símbolo I S2 NY nasceu. Criada pelo grande mestre Milton Glaser, a marca é amada e conhecida mundialmente, ajudando NY a se tornar um grande símbolo de sucesso.

Imagem: Sam Haskins. Logo ‘I Love NY’, criado em 1977 por Milton Glaser.

NY possui, claro, problemas gitantes. O que quero mostrar aqui, e como a galera do Milton Glaser provou há muitos anos atrás, é que dá pra ganhar dinheiro investindo em uma cidade melhor. Investindo na paixão das pessoas pela cidade. NY não seria a capital das compras se não tivesse investido (também) muito dinheiro em melhoria pública.

São Paulo tem tudo isso para se tornar a grande NY do futuro, melhor até, se pararmos de investir somente nos bairros que”dão dinheiro”. Basta mantermos um pensamento arrojado em relação à cidade. Porém quando crescemos e tomamos consciência de que, apesar da beleza do contraste, não é assim que uma cidade deve ser, reparamos como o sistema é cruel com muita gente.

Atualmente trabalho no centro da cidade, e não passo sequer um dia sem que algum morador de rua me aborde, seja para pedir um cigarro, um real pra pinga ou um prato de refeição. São Paulo possui problemas tão gigantescos quanto seu próprio tamanho. Neste final de semana, a quesito de experiência, fui em um shopping chique da cidade. Foi perturbador.

O JK Iguatemi não é bem o rolê mais caro da cidade, mas representa bem esse contraste. Imagine olhar na vitrine um relógio no valor de 39 mil reais. E isso era só um relógio da primeira vitrine que olhei, pense no restante do shopping. Não sei pra você que pode ser bem aí um criativo milionário, mas 39 pau num relógio? Sério?

Consigo entender que gastar uns 200 em um modelo bacana e bom vale a pena. Se for foda mesmo uns 400 até dá pra apertar, como um investimento. Mas na boa, 39 mil reais é mais caro que um carro, malandro! E tem gente aí gastando isso em relógio, como se fosse nada! O shopping estava bem movimentado, com muitas famílias. Gente afetada e gente sussa. E uns pobretões que nem eu e minha namorada (pois até os seguranças pareciam ricos).

Quando imaginamos o valor das marcas e promovemos o sistema que faz tudo isso girar, estamos financiando este sistema de contrastes. Fazemos os ricos continuarem ricos, vendendo produtos caros (muitas vezes produzidos com mão de obra escrava) para pessoas ricas. Fazemos os pobres continuarem pobres, consumindo pingas, cigarros, remédios e dando dinheiro para pessoas ricas. Fazemos os moradores de rua continuarem a morar na rua pois para sustentar um sistema de tanta riqueza é necessário que haja um sistema maior ainda de pobreza.

Ontem foi um dia de eleições. Mais do que resultados, foi um dia de síntese social. É o dia que pesamos o posicionamento da sociedade politicamente. Dia da luta de classes. E, não sei sua cidade, mas a minha não apresenta sinal de grandes melhorias nos próximos quatro anos. A propaganda ajudou muito isso, apesar de os gastos terem sido muito menores este ano (graças a Deus!). Como já vimos em diversos casos como a Revolução Russa, o Nazismo, o comunismo de Mao e atualmente com Kim Jong-um na Coréia do Norte, campanha política só leva à alienação e regimes autoritários.

Imagem: Alexander Rodchenko.

Imagem: Alexander Rodchenko.

Nos últimos anos trabalhei perto de casa, aqui na ZL, e ia ao trabalho de Bicicleta. Trafegava por uma avenida perigosa, com ônibus batendo no guidão da bike. Seis meses depois que comecei a pedalar foi implantada a ciclovia nesta avenida. Muita gente reclamou. Até meu pai. Começaram a fechar duas faixas dessa avenida aos Domingos, pra andar de bicicleta. Aí teve gente chorando de tanto reclamar. Hoje esta avenida atrai centenas de pessoas todos os domingos e, juntamente com o parque linear que foi aprimorado no canteiro central hoje temos o Parque Linear do Tiquatira. É um pedaço do Ibirapuera no meio da ZL. Mesmo assim, não falta quem reclame ainda.

Fizeram ciclovia na Paulista. Fecharam a Paulista aos Domingos. Reduziram a velocidade no trânsito e melhoraram (e muito) a sinalização, o que diminuiu a morte no trânsito e os congestionamentos. Colocaram radares pra pegar os infratores. Pagaram as contas públicas. Hoje o ônibus que eu pego tem ar-condicionado e carregador USB mano! Há 3 anos, isso aqui tava às moscas. Mas tem gente reclamando.

São Paulo é a cidade que mais sustenta esse sistema que nós criamos todos os dias. Vender, ganhar dinheiro, vender mais, ganhar mais dinheiro. Eleições estão aí pra isso. Nenhum partido tá aí pra perder. Essa guerra de lados no qual o país se encontra é nada mais que uma grande jogada de marketing, aplicada de uma forma estratégica para criar bandidos e vilões, ao invés de candidatos. A política está se tornando uma questão de lado, como futebol, ao invés de um embate sobre propostas sérias de governo e melhoria social.

Aos poucos, a gente começa a pensar de acordo com a publicidade, queremos melhorias sem enxergar as consequências disso. Hoje olho pela varanda lá do trampo pro largo do Paissandú e vejo um playgroung construído há pouco tempo, com crianças lá, brincando. Ninguém se importa. Vejo bancos para as pessoas sentarem e ocuparem a rua sete de abril. Ninguém liga para o quanto a cidade ficou melhor para o bem comum.

Temos que pensar, independentemente de qual lado você está, se a gestão política que você pretende para a sociedade na qual você vive será levada a diante por aquele candidato. É isso que acredito como política. Acredito que São Paulo mudou muito em direção ao futuro que eu acredito, especialmente na gestão atual, e torço muito para que continue crescendo mais e mais nesse sentido. Boa sorte ao novo prefeito em 2017, e que por favor não faça os cidadãos desta cidade parecerem idiotas. ;)

E para nós, criativos, basta pensar bem em qual modelo de sociedade queremos sustentar.

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