Inspirações

Manifestações de design ou o design das manifestações?

Sempre que passo por uma passeata, estico o pescoço e tento ler algum cartaz para identificar qual é a causa da manifestação. Nem sempre consigo. Alguém mais informado fala: ah! Isso é a manifestação tal tal tal; ou simplesmente fico sem saber e a vida continua. Na época dos protestos durante a Copa das Confederações, acompanhei discussões muito interessantes sobre o uso ou não de bandeiras. O problema consistia no temor de que pequenos grupos com uma identidade constituída “descaracterizassem” a manifestação plural que ali estava. Ou seja, temiam que fossem considerados uma passeata do PSTU, dos sem-terra, do movimento gay, das vadias, dos estudantes. Por que isso? Por causa do poder do design!

Não sei quantos de vocês já pararam para pensar na comunicação visual das passeatas e no poder e impacto que isso tem. Algumas vezes, os movimentos passam até a ser chamados por aquilo que os caracteriza visualmente: os caras pintadas, os camisas vermelhas, os farrapos. Nas manifestações atuais, observamos uma ditadura das cores partidárias. Qualquer cor que trajamos já nos define como pertencente a um grupo ou a outro. Com as mídias sociais, um simples cartaz feito a mão toma proporções gigantescas. Mas será que estamos cientes do que de fato estão comunicando?

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Essas duas mulheres carregam os mesmos dizeres mas de forma muito distintas. A primeira, fez seu cartaz de próprio punho, manuscrito, pessoal. É a letra dela que está ali. A segunda, porta um cartaz feito digitalmente, com projeto gráfico fazendo referência a sinalização de obras. Ela replica um dizer. Ela o suporta e massifica. Qual das duas você considera mais genuína? Qual das duas está mais institucionalizada dentro de um discurso? Qual é o melhor cartaz?

Nas duas fotos, temos um sujeitinho muito especial que marcou bastante as manifestações da Copa das Confederações. Muitos o chamam de Anônimo, o sujeito de máscara branca com bigode preto. Se é anônimo talvez a gente não devesse perguntar quem é ele, mas…

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Não, não sei porque de fato usam essas máscaras aí. E muita gente também não sabe muito menos que máscara é essa. E olha, tem muita história por detrás dela. Em 2006, a Warner Bros lançou o filme V de Vingança, baseado nos quadrinhos criados por Alan Moore. Nele, o personagem central, o dono da máscara, era um enigmático anarquista, ídolo do revolucionário Guy Fawkes, e lutava contra o partido fascista que controlava a Grã-Bretanha. Para isso, ele explode o Parlamento Inglês. Na época do lançamento do filme, a Warner distribuiu as máscaras para divulgar o filme. Já em 2008, o grupo de hackers Anonymous usou essas mesmas máscaras durante um protesto contra a Igreja da Cientologia.

E, a partir daí, vemos essa cara em vários protestos anticapitalistas pelo mundo todo. Até mesmo Julian Assange, o fundador do WikiLeaks, já apareceu com uma dessas. A utilização delas seja como uma forma de anonimato impensada, seja como uma representação de luta anárquica contra o poder dominante é simplesmente pura ironia. Uma manufatura da indústria cultural cinematográfica americana virou ícone da luta anticapitalista.

Falando em capitalismo e ironia, quase todas frases de ordem entoadas ou desenhadas em cartaz possuía um pouco dos dois. Com muito humor, característico dos brasileiros, os bordões publicitários e as marcas foram apropriadas para protesto. Há quem diga que isso demonstra uma sociedade extremamente liga ao consumo. O que de fato é verdade. Mas isso me lembra, e muito, o Abaporu de Tarsila, o “homem que come gente” que agora é também um homem que consome.

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A Fiat falando para entupir as ruas de carro novo quando ninguém aguenta mais engarrafamento. Brasileiro, que é povo aberto, recebeu bem a campanha e deu um “jeitinho”.

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Johnnie walker sempre incentiva a continuar a andar e dessa vez falou que o gigante acordou. Quer inventivo melhor para manifestar?

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É muito interessante analisar fotos das revoltas e manifestações por todo o mundo. Conseguimos saber como aquele grupo se pronuncia, que grupo é aquele, o quão consolidado ele está. Isso através da percepção de mínimos detalhes, seja pela unidade, seja pela presença de símbolos comuns entre eles ou pela apropriação de uma identidade já existente. Uma manifestação a favor do bem comum de um país provavelmente utilizará de forma massiva seus ícones nacionais. Já em manifestações sem um objetivo político claro, como as que ocorreram na “Revolta do Vinagre”, fica evidente as apropriações e motivações distintas dos variados grupos ou até mesmo uma falta de discurso visual.

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Não faço a menor ideia de que manifestação é essa. Um ótimo registro histórico de um monte de gente reunida.

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Aqui, já temos um Protesto iraniano contra a suposta fraude nas eleições presidenciais de 2009 e a favor do líder da oposição Mir Hossein Mousavi. Vou deixar a análise do rostinho estilizado por conta de vocês.

Então, não é muito difícil perceber a importância que tem o design como arma de identidade e definição de grupos numa ação direta e histórica. A pergunta que fica é se precisamos pensar melhor nossa identidade ou se a postura antropofágica e livre irá guiar nossa construção imagética. O design como comunicação possui uma realização dinâmica que parte do consumidor e acaba sendo consumido por ele.  Ou seja, criamos um pouco do que somos e acabamos por ser aquilo que criamos. Sendo assim, vale a pena a reflexão.

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Quando você estiver indo para casa, recite como Drummond recitaria anônimo: Tinha uma manifestação no meio do caminho.

Tinha um caminho no meio da manifestação.

 

 

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