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Inspirações

Os Quadrinhos Viscerais de Mateus Santolouco e nossa entrevista

Arte por Mateus Santolouco

Fala criativos!

Hoje vou lhes apresentar um verdadeiro orgulho nacional, proveniente da minha terra natal, Porto Alegre no Rio Grande do Sul. Estou falando do grande Mateus Santolouco, atualmente o ilustrador por trás da excelente série de história em quadrinhos das Tartarugas Ninjas da editora IDW. Tive o prazer de bater um papo com Mateus sobre diversos assuntos relativos a carreira, estilo de vida, seu passado e seu futuro, um prato cheio para aspirantes à quadrinistas e criativos em geral.

Você pode encontrar o Mateus e sua arte nos seguintes links:

1- Antes de tudo gostaria de agradecer nos permitir ter a honra de entrevistá-lo, nos conte mais de como começou o seu interesse por quadrinhos e ilustração?

Eu que agradeço o convite!

Olha, chega a ser difícil dizer como começou esse interesse. Desenho faz parte da minha vida desde sempre, tanto que tenho lembranças de quando tinha 4 ou 5 anos de idade relacionadas a desenho e ao ato de desenhar. Acho que devo dar crédito aos meus pais. Minha mãe desenhava por hobby, fez muitos desenhos pra mim quando eu era criança e muitas das festas de aniversário lá em casa tinham decorações e bolos ilustrados por ela, Fantasma e ThunderCats são alguns dos temas que consigo lembrar.

Ela sempre foi uma grande incentivadora, sempre trazendo pra casa livros didáticos sobre pintura e ilustração. Já do lado do meu pai, o incentivo veio pelo consumo, cresci lendo suas coleções de Fantasma, Asterix e Tio Patinhas ou indo ao cinema para assistir Star Wars e coisas do tipo com ele.

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2- Nos fale mais quais são suas referências, mentores e pessoas que o inspiram ao longo desses anos?

Ainda na adolescência, a abordagem que eu tinha com o meu desenho mudou completamente quando conheci o trabalho de três caras: Arthur Adams, Jim Lee e Marc Silvestri. Antes disso eu já lia bastante quadrinhos, mas me limitava a Asterix, Conflito no Vietnam e qualquer especial do Batman (Cavaleiro Das Trevas, O Messias, etc), e depois de conhecer esses desenhistas e o material deles em X-men o caminho natural foi passar a ler tudo que era publicado de super-heróis aqui no Brasil.

Acontece que no máximo uns dois anos depois disso eu descobri Akira e aí, amigo, não teve pra ninguém. Minha principal referência é sem dúvida Katsuhiro Otomo. Não sei se é algo que transparece no desenho em si, mas foi com Akira e Domu que minha visão sobre a mídia quadrinhos mudou pra sempre. Otomo é meu mestre e o trabalho dele o meu norte.

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3- Como funciona o seu processo criativo na criação de uma arte?

Depende muito da arte. Uma página de hq é algo mais prático:

1) Leio e interpreto o roteiro (mesmo que escrito por mim mesmo);

2) Faço a diagramação e composição da página em um thumbnail (um layout bem pequeno com desenho quase de palitinho);

3) Sobre o thumbnail digitalizado defino os requadros e esboço as perspectivas das cenas digitalmente. Depois imprimo este layout no tamanho final em que a página vai ser desenhada, em geral em A3 ou A4;

4) Usando uma mesa de luz faço o lápis azul em um novo papel, tendo como referencia o thumbnail impresso com requadros e perspectivas.

5) Finalizo o desenho com nanquim e quando necessário faço pequenos retoques no computador.

Agora se a arte for uma ilustração ou design de personagem o processo já muda bastante. Nesses casos o trabalho mental vem primeiro, as vezes, se o prazo permite, passo dias pensando em como vou compor a ilustração ou como quero que aquele personagem se pareça, faço algumas pesquisas para alimentar o imaginário e, só quando tenho uma idéia bem clara, uma imagem mental do que vou fazer, é que parto para os primeiros estudos e esboços.

Em geral isso poupa o estresse de ficar de frente para uma folha em branco e forçar algo a sair sem ter nada em mente ainda. Passando por essa etapa, a produção segue da mesma forma que para uma página, com a diferença que sempre produzo as cores deste tipo de trabalho, o que é, na maioria das vezes, impossível de fazer com quadrinhos por uma questão de prazos e tempo hábil. Aqui acrescentamos uma sexta etapa;

6) Digitalizar a arte-final e colorir no photoshop.

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4- Nos fale um pouco da sua rotina, como é um dia na vida de Mateus Santolouco?

Meus dias oscilam bastante. Eu vou com a maré, sabe? Quando a água passa do umbigo é por que está na hora de nadar! (risos). Já fui mais notívago, mas nos últimos anos adaptei minha rotina a da minha mulher. Acordo cedo e tento ter minhas noites livres pra vida social e Netflix e descanso com a patroa. Este ano voltei a trabalhar no meu estúdio em casa, o que ajuda em tempos de deadline e atrapalha em tempos de deadline. Eu não sou o desenhista mais rápido e considero o ofício dos quadrinhos bem oneroso, o que torna praticamente inevitável que alguns finais de semana, algumas noites e madrugadas, tenham que ser sacrificados todos os meses.

Meu ritmo é de uma edição de 22 páginas em 5 ou 6 semanas, na primeira metade desse período produzo os layouts e trabalho nas páginas que quero que sejam destaque, que quero botar mais carinho, e portanto demandam mais tempo e paciência para produzir. No restante das semanas aumento o ritmo de produção para uma, quando possível, duas páginas diárias. Nessa fase final chego a trabalhar 16 horas por dia e a rotina é movida puramente por cumprir a meta e só. Resumindo, no início dos prazos meus dias são tranquilos e suaves, desenhando com calma e curtindo a vida social e amorosa. No final do prazo meus dias se reduzem a ficar algemado na mesa de desenho e fazer pausas para comida, café e cigarros. Mais que 4 horas de sono são um exagero. Ou seja, sou um artista de quadrinhos comum.

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5- Qual você considera o ponto mais positivo e o ponto mais negativo da profissão?

Eu gosto da filosofia do Seu Madruga de que não existe trabalho ruim, ruim é ter que trabalhar. Por isso evito olhar pro meu trabalho como “profissão”, no sentido convencional da palavra. Quadrinhos e desenho são algo que estão atrelados a como eu me vejo como pessoa, é minha paixão. Eu sempre digo que não faço meu trabalho por dinheiro, faço por que quero fazer. É claro que mesmo assim vou dar valor monetário ao meu ofício, afinal, esse é o mundo em que vivemos, mas é engraçado pois, foi só quando tive essa mudança de pensamento sobre a “profissão” que as coisas começaram a dar certo para mim profissionalmente. Hoje, este é o ponto positivo, eu faço da vida o que quero fazer da vida.

Mas perceba como uma mudança de olhar sobre o mesmo aspecto muda tudo. Todas minhas experiências anteriores trabalhando com desenho levavam a um sentimento de frustração, onde o hobby e a paixão por desenhar eram assassinados todos os dias enquanto eram transformados em “trabalho”. Se eu fosse medir pelo passado, este seria o ponto mais negativo, a obrigação, o “ter que” trabalhar, acabava com o amor que eu tinha pelo ofício. Felizmente este não é mais o caso pra mim. Eu diria que hoje, o lado negativo, é a questão do tempo e acho que isso não está tão relacionado com a profissão especificamente mas ao fato de eu ser autônomo. Como não existe um cartão ponto ou um botão de desliga, o trabalho não dá folga nunca, ele acompanha o pensamento todos os dias e todas as horas. Em outras palavras, como eu não me vejo tendo que trabalhar, eu estou sempre trabalhando.

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6- Qual você considera seu melhor trabalho até o momento e porque?

Meu melhor trabalho é sempre o próximo trabalho, aquele que não fiz ainda. Tento pensar dessa forma, até porque, quando faço uma curadoria das coisas que já produzi a grande maioria acaba sendo descartada. Invariavelmente, menos de três meses depois de faze-los, passo a odiar 80% dos desenhos que faço. Existe uma obsessão por estar sempre aprimorando o traço e a técnica e isso não permite que eu fique plenamente satisfeito nunca. O que não quer dizer que não tenham peças das quais eu me orgulhe, bem pelo contrario, destes 20% que se salvam da minha auto-crítica, existem trabalhos de 10 anos atrás que eu ainda gosto muito. Isso só quer dizer que acho que ainda posso fazer melhor.

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7- Agora um rápido bate-bola:

Um filme: O Predestinado.

Uma música: Hurt, interpretada por Johnny Cash.

Um lugar: Morro de São Paulo, Bahia.

Uma cor: Preto. Mas se considerar preto como ausência de cor, então fico com o verde.

Uma comida: Pizza. Não, não, Panquecas. Não, Sushi! Espera aí! Churrasco! Sim, Churrasco. Escolher uma comida só é sacanagem!

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8- Nos conte mais sobre seus hobbies, quando você não está trabalhando, o que gosta de fazer?

Beber com os amigos, assistir séries ou filmes com a esposa e comer bem. Recentemente recuperei meu gosto pelo basquete e por videogames. Gosto muito de não fazer nada também, coisa boa não fazer nada.

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9- Para finalizar, você tem alguma lição que aprendeu ao longo desses anos que gostaria de compartilhar com nossos leitores?

Meu conselho para quem trabalha ou aspira trabalhar com arte é manter o foco no trabalho. Todo o resto é consequência disso. Botar seu ofício de lado para se preocupar em ganhar dinheiro, fazer sucesso ou qualquer coisa do tipo, apenas te distrai do que é realmente importante, do que é a pedra angular para se conseguir todos os anteriores, a sua arte.

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Então galera, esperam que tenham gostado dessa entrevista, se vocês tiverem sugestões ou ideias de outros criativos que vocês gostariam que nós entrevistássemos, não deixe de mandar um email para marcostorres90[at]gmail.com . Um grande abraço e nos falamos na próxima.

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