Inspirações

Relação entre referências e cores no filme Kill Bill (parte1)

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No cinema é comum o uso das cores para criar climas, destacar as emoções das personagens ou ainda para criar uma identidade visual. No Filme Kill Bill (2003, 2004), dirigido por Quentin Tarantino, as estratégias de aplicação da cor vão além. Nele, as cores são usadas para fazer referência a estilos, filmes, quadrinhos, pessoas. Este artigo possui o intuito de desvendar e revelar como a cor é aplicada nesse filme. Isso será feito através de exemplos e uma breve análise das referências utilizadas na criação do roteiro e fotografia.

Kill Bill – Sinopse

Em Kill Bill, a protagonista, Beatrix Kiddo (Uma Thurman), é uma mulher em busca de justiça. O filme foi dividido em duas partes: Volumes 1 e 2.

Bill (David Carradine) é o organizador de um grupo de elite denominado Esquadrão Assassino Víboras Mortais, DiVA. Todas as “víboras” possuem um codinome que se refere a alguma serpente venenosa, sendo a mais mortal de todas, Mamba Negra (Beatrix, personagem de Uma Thurman), ex-namorada de Bill, também chamada de A Noiva. No dia do ensaio para a cerimônia de seu casamento, “A Noiva”, grávida, é vítima de um ataque de Bill e das “víboras”, que acreditam tê-la matado. “A Noiva” não morre, mas entra em coma profundo. Quatro anos depois, ela acorda e decide se vingar de Bill e de cada um de seus comparsas assassinos.

Após exterminar suas ex-companheiras O-Ren Ishii (Lucy Liu) e Vernita Green (Vivica A. Fox) em Kill Bill: Volume 1, Beatrix continua sua vingança em Kill Bill: Volume 2. Com as duas fora do caminho, ainda restam à “Noiva” dois inimigos na sua “Lista da Morte” – Budd (Michael Madsen) e Elle Driver (Daryl Hannah) – antes que ela possa partir para seu objetivo final: matar Bill.

Quentin Tarantino

Quentin Jerome Tarantino (Knoxville, 27 de março de 1963) é diretor, ator e roteirista de cinema. Ele alcançou a fama rapidamente no início da década de 1990 por seus roteiros não-lineares, diálogos memoráveis e o uso de violência que trouxeram uma vida nova ao padrão de filmes familiares norte-americanos.

Ele é um dos mais famosos jovens diretores por trás da revolução de filmes independentes dos anos 90, tornando-se conhecido pela sua verborragia, seu conhecimento enciclopédico de filmes, tanto populares, quanto os considerados “cinema de arte”. Segundo o próprio Tarantino, ele nunca freqüentou a escola de cinema; ele freqüentou o cinema.

Seus filmes são marcados por diálogos afiados, cronologia fragmentada e obsessão pela cultura pop. Comumente, são vistos como graficamente violentos e, em seus filmes Cães de Aluguel (1992), Pulp Fiction (1994) e Kill Bill, há uma enorme quantidade de sangue jorrando.

Pôster Tarantino XX de Ken Taylor

Fotografia de Cinema

Um grande elemento de destaque em Kill Bill é a direção de fotografia. Trocar Andrzej Sekula e Guillermo Navarro, dos filmes anteriores de Tarantino, por Robert Richardson, foi um presente que proporciona um espetáculo visual agradável de assistir. Richardson é um cinegrafista norte americano premiado três vezes no Oscar, pelos filmes JFK (1992), O Aviador (2004) e A Invenção de Hugo Cabret (2011). Foi também indicado ao Oscar de melhor fotografia em 1987, por Platoon (1986); em 1990, por Nascido em quatro de julho (1989); em 2000, por Neve sobre os cedros (1999); 2010 por Bastardos Inglórios (2009); 2013 por Django Livre (2012) e esse ano por Os Oito Odiados (2015), sendo esses três últimos filmes de Tarantino.

Seu estilo é marcado pelas extraordinárias técnicas de iluminação. Um exemplo claro disso, em Kill Bill, é a cena em que a personagem de Uma Thurman tem que enfrentar um bando de dezenas de mafiosos japoneses mascarados, os 88 Loucos. Richardson retira a cor e depois a devolve, modifica a luz, abre uma paleta de cores frias – em cenários propícios como o Japão – aliada às cores quentes – em cenários como o México ou Estados Unidos, o que provoca um êxtase visual no espectador.

A variedade de estilos em uso no filme incorpora animação, fotografia preto e branco supersaturada, e é claro, uma paleta de cores vibrantes e bastante abrangente que remete ao universo pop reverenciado por Tarantino.

As cenas em preto e branco ganham efeito granulado e apresentam perfeito equilíbrio no alto contraste e no nível de brilho.

A iluminação da fotografia, tanto estática (cartazes) como para cinema, trabalha com uma única referência: o Sol. Embora as variantes sejam infinitas, e os climas criados com luz artificial em interiores tenham outras referências, direta ou indiretamente, o sol é a maior fonte de luz e por onde se baseia a estética de todas as outras fontes.

Assim, é possível delimitar duas características principais da luz solar: primeiro, quando a luz do sol atinge um objeto diretamente. Dizemos que é uma luz “dura”, ou seja, luz direta. O outro caso é quando a luz do sol atinge um objeto indiretamente. Dizemos que é uma luz “suave”, difusa.

Estilisticamente o filme oscila entre atores banhados em uma luz difusa, onde as cores tomam um aspecto “mudo”; e uma iluminação direta e forte que vai das roupas com cores vibrantes ao vermelho intenso do sangue.

Exemplo de cores usadas no filme

Exemplo de cores usadas no filme

Um mundo de referências e cor

No cinema, assim com em outras artes e em quase tudo o que existe, é comum o uso de referências. Elas servem para inspirar, dar credibilidade, homenagear, embasar. Tarantino constrói um cinema de citação que tem como objetivo maior ser uma exaltação ao pop, e conseqüentemente, ao cinema de gênero.

O ready-made cinematográfico sempre esteve presente nas produções do diretor. Em Kill Bill, ele faz do empréstimo de fórmulas e imagens o centro de seu cinema, expondo de forma clara suas obsessões estilísticas. Tarantino devolve à imagem toda a capacidade de fascinação que esta pode ter, agregando a ela uma variedade de referências agrupadas cuidadosamente uma atrás da outra. Em uma crítica sobre o filme escrita por Ruy Gardnier, lê-se:

Kill Bill é uma homenagem a Chang Cheh, mais importante realizador de filmes de Hong Kong nos anos 70, e também às diluições televisivas que esse cinema rendeu nos Estados Unidos. Ora, tanto Chang Cheh quanto Sergio Leone – sabidamente o realizador preferido de Tarantino – fazem parte do momento crepuscular do cinema de gênero, numa época em que esse cinema passava a remeter imediatamente não mais ao mundo, mas às figuras tornadas clichê do próprio cinema. A chave era reinvestir a imagem com tipos já conhecidos do espectador, fazendo com que o interesse principal do filme circulasse em torno do estilo, da mise-en- scène e do poder icônico da imagem (outro preferido de Tarantino, Brian De Palma, é o principal responsável por essa virada dentro do cinema americano). Passada a tábula rasa dos anos 80, quando uma nova tentativa de acesso ao real se perde num total chororô da perda de referência e da crença (Wim Wenders, morte do cinema, etc.), é necessário retornar aos velhos clichês para reconstruir um cinema que fale sobre o cinema e que, mesmo em detrimento de uma certa preocupação profunda com o real, faça voltar um culto de adesão à imagem que consiga criar diferença no mundo de hoje.

Sejam os filmes de kung fu, sejam os quadrinhos japoneses (mangá), sejam os westerns italianos; a referência funciona de forma afetivo-conceitual mais do que narrativa. “(…) afetivo porque (…) a reprodução de referências aqui tem o objetivo maior de despertar no espectador algum tipo de emoção que a memória do filme em questão lhe remeta.” (GOMES, 2006)

A fim de construir essa intertextualidade, Quentin Tarantino lança mão de diversos recursos. Entre eles podemos citar a cor. Esta tem o poder de fazer referências de maneira sutil e ao mesmo tempo tão marcante. As cores podem citar, de modo simultâneo, fotografia, figurino, atmosfera, momento cronológico, emoções, ações, pessoas. É uma gama enorme de possibilidades de aplicação de cores com o intuito de fazer referência e que Tarantino explora com grande sabedoria.

Exemplos de aplicação de cor em Kill Bill

No próximo post iremos ilustrar e explicar algumas situações em que as referências aparecem em Kill Bill, sustentadas pelo uso da cor. Aguardem! Quinta-feira, dia 28/07, aqui no Design Culture!

UPDATE: Link para a parte 2: AQUI

 

*Trabalho escrito por mim, Leandro Augusto Melo, em conjunto com Joe Lopes Reis Filho e Luiz Eduardo Bertoletti como trabalho acadêmico do curso de design da PUC-Rio.
**Referências bibliográficas na continuação do post 

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