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A lista – Parte 2

Imagem: Fotolia

Bom, o lance tá cada dia mais claro. Em meu último texto levantei a bola e coloquei minha teoria na prática. O que eu esperava acabou de certa forma se concretizando: quase ninguém se pronunciou, a não ser o Bruno Macedo, que inclusive chegou exatamente no ponto que eu gostaria de chegar.

Duas hipóteses surgem daí: a primeira é que poucos estão dispostos a ler as baboseiras que escrevo aqui, o que temo ser uma parte da realidade. A segunda, e essa sim nos aprofunda mais do tema abuso, é o fato de que as mulheres sinceramente não querem falar.

Parece provocação, mas se você analisar com mais detalhe e se colocar no lugar, vai acabar se perguntando: até que ponto você quer falar coisas que as pessoas não aceitariam ouvir, ou mesmo achariam ser puro “mimimi”. Coisa de Feminazi, alguns dizem. E na real, quem vai ouvir depois de ver que ninguém nunca, nunca mesmo, faz nada para melhorar esta questão dentro das empresas ou mesmo no dia a dia?

Por tudo vale a pena mudar, mas quando temos que lutar pra mudar a cabeça de muita gente, da sociedade toda, e colocamos nosso emprego ou mesmo reputação em risco por isso, fica muito difícil não é? Ainda mais quando você é homem, e não vê o tema lá com muito conhecimento de causa.

O que acontece é que este assunto está tão enraizado na sociedade quanto maizena, e quando tentamos mudar as coisas acabamos comprando uma guerra com, inclusive, o nosso estilo de vida. Lembra aqueles vídeos que viviam circulando no whatsapp de mulheres que eram brutalmente expostas por fazerem “safadeza” na frente das câmeras? A culpa é delas não?

NÃO, caro amigo. A culpa não pode ser da vítima. A culpa de um abuso, um desrespeito, uma brincadeirinha de mal gosto, estupro… nunca é de uma mulher, não importa o tamanho do vestido que ela use, não importa a música que ela ouça, não importa o jeito como ela fala ou se comporta. Os verdadeiros culpados disso tudo somos nós. Nós, como a sociedade que corrompe, que subverte, que inverte os papéis. Que coloca a mulher como uma refém dos ditos “bons costumes”. Que possuem pais que ensinam seus filhos a serem “comedores” e suas filhas verdadeiras “santas”.

Mad Men, episódio piloto. AMC/Netflix

Quem assistiu Mad Men, pelo menos um episódio que seja, percebe o quanto nossa área está repleta de pessoas preconceituosas e, especialmente, aproveitadores. Não é diferente não, e você sabe bem. Quantas vezes você não ouviu ou fez parte daquele papo sobre a nova “gostosinha” do pedaço? Pois é rapá, o buraco é bem mais embaixo quando falamos sobre abuso. Simplesmente porque fazemos parte dele, todo santo dia.

Tá bem, você não é uma pessoa desrespeitosa com os coleguinhas do trabalho, respeita as mulheres e talz. Até urina sentado pra não sujar o vaso, achando que tá fazendo o maior ativismo feminista da vida. Você pode até ser o cara mais legal do mundo, e parabéns por isso, não porque esteja fazendo alguma coisa pela luta das mulheres, mas porque está fazendo uma mudança de postura que te torna melhor como pessoa.

De qualquer maneira, você deve ter uma pequena ideia do quanto é difícil ser mulher, especialmente no meio publicitário. Não só no anuncio ali impresso não. A mulher é vista de uma forma muito cruel ainda em nosso dia-a-dia. Os problemas que vimos refletidos n’A Lista em agências como a Jüssi não são somente o problema de uma empresa, ou de um indivíduo, mas é um problema social muito maior.

Isso não exclui de maneira alguma a responsabilidade de um indivíduo ou de uma empresa arcarem com as responsabilidades deles, obviamente, e casos assim precisam ser denunciados, discutidos, resolvidos. Mas de todo, não podemos esquecer a responsabilidade maior: a nossa.

Nós é que fazemos nosso ambiente de trabalho funcionar, nossa vida. E vamos ser honestos, quando o tema é feminismo, temos dois tipos de pessoa: as que se importam e as que não. Se você é da parte que se importa, não desista de lutar porque essa batalha já está ganha e em pouco tempo teremos uma sociedade mais justa. Para os que não se importam, resta dizer que seu futuro está destinado ao fracasso.

Mentes fechadas não terão lugar no mercado e na sociedade do futuro (thanks buda). É fácil verificar isso até mesmo assistindo às novelas da globo. Beijo gay hoje em dia não é novidade e se você ainda tem a moral de se ofender com isso – o que você pode até achar que é direito seu mas não é – então já consegue perceber que a coisa tá mudando.

Muitas empresas grandes abraçam causas que beneficiam a sociedade ajudando a mudar seus paradigmas e reconhecer seus erros. Isso tem trazido dinheiro pro bolso de muita gente, até pra quem ainda não abriu a cabeça, mas que sabe aceitar qualquer dólar que vier. Portanto se você tá pouco se f* pras causas sociais, pelo menos não atrapalhe um mercado que vai mudar tudo pra melhor.

A publicidade ajuda todo dia na mudança. Até a Devassa, cerveja que já deu muito o que falar, mudou seu posicionamento mostrando que não precisa de “bunda de mulher gostosa” pra vender nada. Nem todo mundo abraça uma causa só porque apoia, mas também porque dá dinheiro. Se isso ajuda a mudar o panorama das coisas e garantir uma sociedade mais harmônica, seja bem-vindo.

Tem gente aí no entanto que ainda não sacou que propaganda se faz com aquilo que acreditamos. Não passamos horas e horas criando para conseguir vender um produto ou uma ideia. Passamos horas e horas tentando entender e acreditar nele. Quando não conseguimos atingir esse objetivo criamos algo que não condiz, e muitas vezes gera problemas, com a realidade do mercado (e da sociedade). É o caso da campanha para aspirina criado pela AlmapBBDO, que perdeu inclusive um prêmio em Cannes nessa brincadeira, além do vexame, conforme mostra a matéria do G1. Isso mostra que até as grandes agências ainda quebram a cabeça pra entender essa nova sociedade, e tentam muitas vezes criar ideias novas com receitas antigas, o que acaba dando merda no final.

O que não podemos deixar nunca de ter em mente é que as mudanças, todas elas, devem vir primeiro das nossas cabeças. Sempre é bom se policiar pra saber se você está no caminho certo para ser uma boa pessoa, acima de tudo. Achar que “a publicidade ficou chata”, como andam dizendo por aí, é só uma maneira de perceber o quanto você já está fora da jogada. ;)

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